segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

As Sete Áfricas


Depois de muito tempo de espera, enfim, parte da coleção de arte africana de Cláudio Masella é aberta ao público! Soma-se mais de mil as peças que foram doadas em 2004 pelo industrial italiano. 90 delas podem ser vistas no Solar do Ferrão, uma seleção cuidadosa e no mínimo surpreendente que movimenta o ambiente de boas exposições que Salvador vem desfrutando. A diversidade chama atenção. A amostra foi organizada em sete grupos de acordo as regiões, países e etnias. Estão representados: povos do Golfo do Benim, República dos Camarões, Akan de Gana, Costa do Marfim e Libéria, Savana e Sahel, Guiné e Guiné-Bissau e povos do centro sul da África.

A exposição As Sete áfricas me remete a Nina Rodrigues, uma controversa figura da transição do século XIX para o XX. O médico, que sustentava teorias evolucionistas, racialistas, foi pioneiro no estudo das manifestações artísticas dos escravos, o que faz de sua obra importante documento quando se quer entender essa mudança de visão perante a obra de arte de origem africana. Há de se reconhecer que o racismo do autor não anula sua contribuição e pioneirismo para os estudos do negro e da arte. Não foi fácil se dedicar a este assunto tendo ele, contraditoriamente, sofrido descriminação por este interesse, que estava distante das preocupações dos outros médicos.


O fato é que o olhar sobre a arte africana mudou muito. Já teve seu momento de nem figurar dentro da história da arte oficial e quando o fez foi de forma preconceituosa colocada dentro de arte primitiva, considerada uma arte infantilizada que seguindo a teoria evolucionista necessitaria avançar em direção a as artes tradicionais ocidentais. Até hoje alguns museus colocam Egito separada da África e esta como se não tivesse se modificado através dos anos e fosse um continente homogêneo. Essa visão, fruto de uma percepção eurocêntrica, retardou o estudo sistemático da arte africana. Reconhecemos a arte antiga africana como fruto de seu contexto, porém não analisando apenas do porto de vista etnológico como por muito tempo foi feito, ampliam-se as abordagens incluindo a do ponto de vista estético.


Torna-se interessante lembrar a visão que Nina Rodrigues tinha de objetos da arte tradicional afro-brasileira e perceber que essa estética, renegada pelos europeus naquela época, apesar de todas as retaliações sofridas, durante outros momentos também, é hoje utilizada pelos africanos e reconhecida como uma arte de alto nível. Na Bahia esta coleção faz o contraponto com obras de artistas locais como Ruben Valentin, Mestre Didi, Agnaldo Manuel dos Santos e tantos outros artistas que também têm na matriz africana sua inspiração. Imagino que as peças doadas por Claudio Masella se sintam em casa.


Com satisfação vemos Salvador, que já contava com a Casa de Benin e com o Museu de Afro Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, ganhar agora outro importante espaço de reflexão artística, étnica e cultural que aproxima a cultura baiana de uma de suas culturas ancestrais.

2 comentários:

Ricardo Pinto disse...

O que seria do CUBISMO sem os estudos de Picasso sobre a arte Africana..."achar feio o que não é espelho" :a ideologia mais burra que já dominou o ocidente...mas eu acho que estamos evoluindo!!!ainda bem

RAMON(ES) disse...

Hum... parece ser interessante.
Depois vc vai me levar pra ver?
beijos